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Maringoni: O ato de São Paulo foi um sucesso. Por isso é preciso desqualificá-lo

[Maringoni: O ato de São Paulo foi um sucesso. Por isso é preciso desqualificá-lo]

Vários fatores contribuíram para o êxito do ato. O primeiro é que a farsa vai ficando grotesca aqui e no exterior, à medida que o tempo anda.

A manifestação de São Paulo não estava na conta do governo golpista, da gestão estadual tucana e nem da grande mídia. Alguma providência precisaria ser tomada. E ela veio com uma estúpida repressão policial, em seu final.

Vários fatores contribuíram para o êxito do ato. O primeiro é que a farsa vai ficando grotesca aqui e no exterior, à medida que o tempo anda. A segunda é que a truculência e a sem-cerimônia marota do golpismo abusa da boa vontade da população de forma crescente. A terceira é que cada vez mais gente decide não engolir passivamente o caldo de cultura autoritário que é servido sem solicitação.

Além de tudo isso, houve o fator provocação, vindo da boca de sua excelência o jurisconsulto que tomou de assalto a cadeira do terceiro andar do Palácio.

ATRASO

Michel Temer repetiu - com 32 anos de atraso - a provocação de Carlos Átila, porta-voz do último general da ditadura, João Baptista Figueiredo.

Na semana anterior ao 16 de abril de 1984, data do gigantesco comício das Diretas no vale do Anhangabaú, o porta-voz calçou os coturnos da arrogância e sentenciou: "Essas manifestações são insignificantes".

Teve o troco merecido. Diante da menção ao seu nome, por Leonel Brizola, Átila recebeu estrepitosa vaia de mais de um milhão de pessoas que exigiam o fim da ditadura.

Temer sentenciou, na China, que as concentrações não juntavam mais do que 40 pessoas. A resposta veio imediata.

Na tarde deste domingo cinzento (4), a concentração na avenida Paulista começou pequena, por volta das 15h00. Mas à medida que o relógio avançava, o fluxo de pessoas se acelerou. Depois de meia dúzia de discursos do alto de um caminhão de som, a multidão se esparramava por várias quadras da via.

CEM MIL

A passeata, em direção ao largo da Batata, na zona Oeste, distante cinco quilômetros, foi impressionante. Mesmo com toda a intimidação de tropa de choque, camburões e motoqueiros da polícia às dezenas, cerca de cem mil pessoas cumpriram o trajeto.

Não havia como a situação degenerar em violência. Sob uma temperatura agradável, jovens, velhos, crianças e adultos externavam sua crítica em clima de festa.

Os organizadores tiveram o cuidado de impedir a presença de provocadores durante todo o tempo.

FORA DOS PLANOS

Uma manifestação plenamente exitosa não estava nos planos de Geraldo Alckmin. Para jornais e TVs seria um contraclima. Evitaria manchetes que flertam com o terrorismo jornalístico. Não geraria editoriais furibundos, pedindo a disciplina de pau e bomba.

Por isso, ao final, sob pretexto de ações de provocadores totalmente desconectadas da multidão pacífica, as explosões de gás começaram e a repressão se desatou.

Mas é pouco provável que sirva para intimidar.

A brutalidade de manifestações em outros três dias da semana paulistana serviu de incentivo para as ruas serem ocupadas de forma democrática.

Alckmin e seus jagunços fardados brincam com fogo.

Em 2013, a repressão exagerada foi um dos combustíveis para que a revolta se espalhasse pelo país.

Provocação não vale a pena de lado nenhum.

Seria bom Michel Temer recuperar aquelas palavras de Carlos Átila de três décadas atrás e perceber que mesmo bravatas palacianas não abafam o ruído das ruas.

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